Vocês estão participando?

16 de agosto de 2010

Permitam que lhes pergunte, caros amigos que não conheço: vocês estão participando do processo vital de seu Município?
Vejam: vocês devem ter lido a sua Lei de Diretrizes Orçamentárias no Diário Oficial de seu Município. Tinha que ser votada e devolvida ao Executivo até o final da primeira parte da sessão legislativa do ano, algo como 15 de julho. Pois, agora, certamente foi publicada.
A Lei de Diretrizes Orçamentárias, LDO para os íntimos, vai balizar a montagem do Orçamento para 2.011, que o Executivo deverá remeter para a Câmara até o final deste mês; alguns Municípios prorrogaram o prazo até final de setembro. Não é o que diz a Constituição, mas se colar, colou. E, em geral, cola.
Olhem, o Orçamento Municipal é peça da maior importância. Deve levar em conta não só a LDO, como também o Plano Plurianual, que cobre de 2.010 a 2.013, ou seja, desde o segundo ano do atual mandato até o primeiro do próximo (para evitar hiato). E o PPA, apelido do Plano Plurianual, deve seguir o que determina o Plano Diretor urbano, em verdade o único instrumento de planejamento a médio prazo de que dispõem os municípios e que deve cobrir todo o território municipal e todos os setores onde atua a Prefeitura.
A Sociedade precisa ter clareza: o Mandatário, eleito para o Executivo ou para o Legislativo, é um Administrador cujo horizonte não ultrapassa um quadriênio. Ora, as políticas públicas demandam bem mais de uma década para serem implementadas; assim, fica evidenciado que não cabe ao Administrador definir as políticas públicas, mas sim à população, através dos mecanismos descritos no Estatuto das Cidades (Lei Federal 10.257/01).
Nunca foi tão fácil participar. Mas esse direito tem que ser exercido a partir da vontade e da iniciativa da População.
O que, infelizmente, raramente é o caso.

artigo

16 de agosto de 2010

Planos Diretores são, como o nome indica, um conjunto de metas a serem atingidas. Assim, os Planos Diretores de Desenvolvimento Urbano – obrigatórios para municípios com mais de 20.000 habitantes – devem conter as indicações da cidade que seus habitantes querem em determinado prazo.
Apesar do estabelecimento de um porte mínimo para a obrigatoriedade, municípios menos populosos podem se beneficiar (e muito) do instrumento legal, permitindo prever vários problemas normalmente enfrentados por cidades maiores, bem como descobrir e explorar potencialidades.
A Lei 10.257 de 2001 (Estatuto da Cidade) regulamentou instrumentos legais oferecidos pela Constituição e, dentre outros feitos, vinculou o Plano Diretor às leis orçamentárias e condicionou a criação e a aprovação de tais ferramentas à participação popular. Outro aspecto relevante é a explicitação do binômio desenvolvimento/sustentabilidade ou proteção do meio ambiente.
Planejamento, participação, sustentabilidade, transparência, são valores e objetivos perseguidos pelo PHS. Portanto, planos diretores são ferramentas de trabalho para nosso Partido.
A partir da vigência do Estatuto da Cidade houve uma proliferação de Planos Diretores, produzidos pelas próprias prefeituras ou por empresas e institutos de pesquisa. Sem duvidar da seriedade ou qualidade de tais autores e me incluindo entre eles, verificamos que acabamos por estabelecer modelos de leis que não refletem as especificidades dos municípios para os quais foram feitas. Também, nem sempre a participação popular foi tão intensa quanto se desejaria – muitas vezes pelo desinteresse e falta de informação da população ou pelo pouco empenho da Administração Municipal.
Nós do PHS podemos mudar isso. É possível modificar o formato do conjunto das leis que regem o desenvolvimento de nossas cidades, integrando-as, adaptando-as às características locais e estimulando participação popular. Isso pode ser feito por ocasião do processo de edição, revisão ou atualização da legislação urbanística.
Um bom começo pode ser a troca de experiências e a divulgação intermunicipal desse tipo de legislação entre as Administrações ligadas ao PHS. Ferramenta importante para isso começou a ser elaborada a partir da 1ª Sexta Feira de Reflexão, promovida pelo IPHS/FUNSOL e ocorrida em 06/08/2010 em Petrópolis. Na ocasião, com a presença de filiados de Petrópolis, Volta Redonda e Rio de Janeiro, foram traçadas as bases para a criação de uma Rede Social Intermunicipal do PHS. O projeto está em gestação, mas é promissor e pode disseminar valores basilares do Partido: planejamento, transparência e participação.
Luiz Antonio Alves de Souza – Assessor do IPHS/FUNSOL

A PARTICIPAÇÃO NA LRF

12 de julho de 2010

O Artigo 48 da Lei de Responsabilidade Fiscal, Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2.000, assim como o seu parágrafo ´´único, merecem toda a nossa atenção:

Artigo 48: São instrumentos de transpar~encia da gestão fiscal, aos quais será dada ampla divulgação, inclusive em meios eletrônicos de acesso público: os planos, orçamentos e leis de diretrizes orçamentárias, as prestações de contas e o respectivo parecer prévio; o Relatório Resumido da Execução Orçamentária e o Relatório de Gestão Fiscal; e as versões simplificadas desses documentos.

Parágrafo Único: A transparência será assegurada também mediante incentivo à participação popular e realização de audiências públicas, durante os processos de elaboração e de discussão dos planos, lei de diretrizes orçamentárias e orçamentos.

Se algum dos dispositivos deste artigo e seu parágrafo são nossos conhecidos do Estatuto das Cidades (Lei nº 10.257/01), a exigência de divulgação das prestações de contas e de seus respectivos pareceres prévios (elaborados pelos TCEs) é muito menos óbvia para a Comunidade.
Eis um ponto sobre o qual devemos refletir. A cada ano, os Municípios recebem e votam os Pareceres Prévios dos TCEs, mas raramente informam a opinião pública sobre os mesmos.

INVERSAO SOCIAL NA EDUCAÇAO

16 de junho de 2010

No Brasil, é inegável o fato de que os problemas financeiros afetam a
educação. Enquanto estudantes de baixa renda concluem o ensino médio em
unidades públicas, os mais abastados terminam em escolas particulares.
Quando chegam ao nível superior, começa a inversão social: alunos de
melhores condições financeiras passam a estudar em universidades públicas
e os carentes, em universidades particulares. Devido ao baixo nível de
conhecimento, muitos não conseguem aprovação nas universidades federais e   estaduais.
De acordo com pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE), de 2006, a rede particular cresceu 7,5%, com 781 mil novos
matriculados contra 311 mil a menos na rede pública.
Os números do IBGE sugerem que os alunos estão trocando de rede de ensino.
Apesar desse saldo, o sistema público ainda é responsável pela educação de
80,3% dos brasileiros.
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) apontam que a
grande maioria dos estudantes de 3º grau vem da rede particular de ensino
(75,5%).
O maior problema não está na divisão social, mas na necessidade de uma
base escolar pública de qualidade, do ensino fundamental ao médio,
garantindo mais chances de concorrência entre estudantes de escolas
públicas e particulares.
Que os governantes se preocupem mais em oferecer qualidade em detrimento à quantidade de vagas; deixem de paliar a situação com programas
educacionais que amenizam essas questões, mas não solucionam o problema
> que está na base, desde os primeiros anos de educação.
>
> O meu desejo, como presidente do PARTIDO HUMANISTA DA SOLIDARIEDADE no
> municipio de Taperoá-ba
> , é que nossa população tenha acesso a serviços públicos de qualidade,
> independente da condição social que possuam.

É HORA DE PARTICIPAÇÃO

6 de maio de 2010
Três acontecimentos na vida municipal devem chamar a atenção dos que gostam de gestão participativa.

O primeiro é a remessa do Projeto de Lei da LDO 2.011 pelo Executivo à Câmara Municipal. A sua elaboração já deve ter feito objeto de debates, consultas e  audiências públicas. Mas, se ainda não o fez, é tempo de entrar em contato com a Câmara e pedir que a indispensável participação ocorra na fase das discussões no Legislativo. Caso o cidadão não obtenha sucesso, pois vai aos jornais, rádios e TVs locais e bota a boca no trombone e representa ao Ministério Público, à luz do Estatuto da Cidade. A Lei existe, a lei determina, ninguém cumpre, pois é responsabilidade do MP adotar as medidas cabíveis a partir de “provocação” comunitária. E este é o papel de um Partido político.

O segundo acontecimento é a apresentação das contas de 2.009 à Câmara para remessa ao TCE. Pois qualquer cidadão tem o direito de pedir vistas dessas contas. Basta requerer à Câmara, solicitando acesso às mesmas. Não esqueçam de citar a base legal, o caput do artigo 48 da lei de Responsabilidade Fiscal já está de bom tamanho. O requerimento será feito nos termos do artigo 5º da Constituição Federal, inciso XXXIII. E digam para que querem esse acesso: por exemplo, para ver se a legislação do FUNDEF foi cumprida, ou se os limites de gastos com o pessoal não foram ultrapassados. Ou as contas de seu Município não lhes interessam? Não esperem muito que os Srs. Vereadores efetuem essa leitura; muito  mais fácil a Comunidade organizada, onde militam contadores, administradores, advogados, auditores, economistas, e outros especialistas, chamar a si a tarefa.

E, enfim, uma outra dica. Quando o TCE manda um parecer prévio das contas do Sr. Prefeito, a Câmara tem a obrigação de informar a Comunidade sobre o fato, e colocar o Parecer ao dispor da população. Está lá, no caput do artigo 48 da LRF. Ao final da lei, estão anotadas as sanções que recaem sobre quem não liga para a obrigação.

Está tudo aí para que a Participação ocorra, Só não a exercemos, se formos relapsos. Querem melhor campanha do que trabalhar pelo povo? Eu não conheço.

Se tiverem dúvidas, perguntem ao CRC ou à OAB. Mas ajam. Quem dorme no ponto é chofer de praça, dizia-se décadas atrás. Continua valendo.

Tenham um bom dia.

PLANO DE GOVERNO X PLANO DIRETOR

8 de abril de 2010

O comentário do Senhor Ministro Ayres de Britto, citado pela grande imprensa, sobre o horizonte que deve ter um mandatário nos leva a esta reflexão.
Entendemos que tenha sido feito como crítica à perpetuação no poder, que é o sonho da grande maioria dos que se elegeram para algum cargo. Mas as palavras usadas não foram felizes, ao destacar a importância do governante ater-se ao seu mandato e ao seu Programa de Governo. Ou as anotações dos jornalistas não traduziram com fidelidade o pensamento do Senhor Ministro.
O papel do Chefe do Executivo não é o de impor à toda a população as suas idéias, abandonando as que haviam sido postas em prática pelos antecessores e já sabendo que os sucessores farão a mesma coisa com os seus programas e nomes de fantasia. A Bolsa isso vai se tornar Bolsa aquilo, o PAC virará outra coisa, e cada mandatário, eleito para um quadriênio, somente um quadriênio, nada mais do que um quadriênio, vai trabalhar e ordenar despesas sobre idéias que talvez agradem ao seu Partido ou grupo de seguidores, mas certamente não ao povo.
Pois este, de quem emana todo o poder, é levado pela Constituição Federal a participar do planejamento público. Em matéria orçamentária, o sistema parte do Plano Plurianual, que cobre os três últimos anos de mandato corrente mais o primeiro do sucessor (para evitar o hiato de planejamento). Vejam que já não há coincidência absoluta entre um Plano de Governo e o PPA, pois os prazos de cobertura são diversos. Ao assumir o seu cargo, o Sr. Presidente, o Sr. Governador, o Sr. Prefeito, devem cumprir o último ano do PPA que lhes foi deixado em herança, assim como deixarão outro ao sair.
Mas o PPA depende do Plano Diretor, a nível municipal, ou de documento semelhante, a nível estadual, distrital ou federal. Em verdade, o administrador eleito tem por missão maior continuar executando o planejamento de médio e longo prazo que foi acolhido pelo Legislativo e que deve ter contado com o maior volume possível de participação popular. É desse planejamento a oito, doze, ou vinte anos, que se trata, e que não deve, nem pode, ser alterado a cada quadriênio, sem que ocorra volta à fonte do poder, ou seja do povo. Com todo o respeito, quem votou a favor do PAC?
Nossa política sofre de aguda anemia em matéria de planejamento, o que enseja o improviso messiânico. Onde estão definidas as políticas públicas de médio e longo prazo? Quando foram votados os planos diretores ou estratégicos abrangentes? São esses que devem ser executados e não as idéias de última hora ornadas de  nomes pomposos que se deseja impingir à uma população inteira.
Curioso que se discutam atitudes de ocupantes de mandatos de quatro anos, e não se pense em indagar onde estão os planos transformados em Lei que deveriam assegurar, eles sim e sob controle popular, a coninuidade das políticas públicas…

ECONOMIA SOLIDÁRIA

19 de março de 2010

A paixão pela Participação implica em nos interessarmos por duas vertentes: no campo da administração pública, pelo da GESTÃO PARTICIPATIVA.     E, no campo da economia, pela ECONOMIA SOLIDÁRIA.

Vivemos sob as normas do capitalismo ou liberalismo, que remete à   “economia de mercado” como grande norma reguladora. Alguns países tentam encontrar seus caminhos sob outros sistemas, com forte liderança e presença do Estado: China, Irã, Vietnã, Coréia do Norte, Venezuela, entre outros. Mesmo nessas exceções,  parâmetros e influências inevitáveis são ditados pelo  capitalismo hegemônico no mundo.

Os pontos fortes do capitalismo são numerosos: a concorrência, mesmo se muito imperfeita, estimula o progresso e a capacidade de adaptação às mais diversas e inesperadas situações. Como não cabe aqui um trabalho de fôlego mas tão somente a formatação de uma reflexão que defina o nosso “norte”, vamos colocar na coluna dos débitos do capitalismo dois pontos que entendemos de relevante importância: o primeiro, as desigualdades nascidas da má distribuição da renda e as exclusões puras e simples, com ou sem parcela de responsabilidade por parte das vítimas do processo. Não estamos falando de números sem maior significado: o IBGE considera existirem no Brasil 10,335 milhões de pequenas empresas informais urbanas, assegurando fonte de sobrevivência a um universo de 13 milhões de pessoas. Não são menos de 49,1 milhões, segundo o PNAD de 2.006, os trabalhadores sem carteira assinada, por conta própria ou sem remuneração definida. Tal segmento da população, mais vulnerável, é exatamente aquele que não conta com sindicatos e centrais nem com o INSS. De quando em vez são lembrados através de práticas assistencialistas marcadas por interesses eleitoreiros. Desconhecemos, por parte de Governos ou partidos, estudo de políticas públicas de inclusão econômica permanente dessas pessoas, mediante sistema que as atenda e que deverá levar em conta que a “economia de mercado” excluiu-as sem propor qualquer solução.

O segundo aspecto negativo é representado pelas prioridades equivocadas, nascidas das distorções da utópica “economia de mercado”. Pois não são as regras do mercado que ditam as políticas e as ações, mas as pressões dos detentores do poder político e econômico. Citemos apenas um exemplo: as nossas políticas de transportes. Será que a visão de São Paulo paralisada por engarrafamentos monstruosos permite supor que alguma lógica de um mercado inteligente presidiu à formação dessas filas infinitas de bólidos parados a expelir gases poluentes, forçando para baixo a qualidade de vida dos cidadãos aos quais teriam vindo trazer conforto?

Entre uma falsa “economia de mercado” e um planejamento rígido exercido por Estado excessivamente forte, seja ele de direita, esquerda ou teocrático, há espaço para soluções solidaristas comunitárias, que desbanquem do topo da escala as prioridades dos detentores do poder político e econômico, colocando em seu lugar os interesses naturais das pessoas e das comunidades.  .

O nosso propósito, ao abordar a Economia Solidária, é de refletir sobre um sistema econômico eficiente que privilegie as pessoas e as comunidades, marcado pela solidariedade e não mais pela competição exacerbada.

Se vamos começar a caminhada pelo seu princípio, não incorreremos no quixotismo de querer mudar  a economia capitalista  dominante. O IBGE, ao nos informar sobre um universo considerável marginalizado, excluído pelo sistema, também nos aponta o campo sobre o qual devemos debruçar-nos, em primeiro lugar. A oferta de empregos com carteira assinada é conseqüência da lógica que exclui inevitavelmente; comecemos por atentar por esse imenso contingente de rejeitados, o que não pode ser confundido com “coitadismo” nem com a prática da caridade. Falamos da área mais propícia para semearmos a Economia Solidária

Já encontramos pronto, e ao nosso dispor, um rico acervo de ferramentas. Um modelo de empresa foi criado desde meados do século XIX sobre bases não capitalistas: a cooperativa. Os 7 princípios dos Pioneiros de Rochdale (Inglaterra,) prevalecem até hoje, e geraram empresas de grande porte e respeitada eficiência, desde a Corporação Coooperativa Mondragón (Espanha), até um miríade de micro-iniciativas:

1)     controle democrático: um sócio, um voto.

2)     adesão aberta de novos membros no mesmo pé de igualdade dos antigos.

3)     juros limitados ou fixados sobre o capital subscrito.

4)     distribuição de parte do excedente proporcional às operações.

5)     vendas à vista, sem crediário.

6)     vendas só de produtos puros, não adulterados.

7)     neutralidade política religiosa.

O cooperativismo requer uma prévia preparação dos interessados e uma formação contínua; em verdade, ele propõe uma prática bem diversa daquela que nos cerca. Não por acaso, essa prática se identifica com o Ensino Social Cristão, inspirado em numerosas Encíclicas e Documentos da Igreja Católica; pois não é verdade que este não propõe aos seus fiéis e aos que o quiserem adotar a primazia do Trabalho (pessoas) sobre o Capital (bens)?

A ferramenta básica da Economia Solidária  já existe: a cooperativa. Precisamos conhecê-la e praticá-la, pois não há como se transmitir a terceiros uma paixão que não vivemos internamen

ECONOMIA SOLIDÁRIA

2 de março de 2010
O que é a Economia Solidária?
Poucos sabem que o Governo Federal mantém uma Secretaria de Economia Solidária (SENAES) meio perdida pelos meandros do Ministério do Trabalho e Emprego. O seu titular é um Economista respeitado, o Prof. Paul Singer; já não ousaríamos dizer que o tema faz parte das paixões do Ministro Carlos Lupi.
Em verdade, trata-se de incentivar, na Economia, a ampliação da área ocupada por aqueles que desejam ver a solidariedade primar sobre a competitividade. O capitalismo, tal como o conhecemos, é marcado pela competição, pelo permanente enfrentamento entre empresas, entre produtos, entre profissionais. O sistema tem os seus méritos, pois multiplica os mecanismos que destacam os melhores.
Bem, se é verdade que ninguém consegue fazer omelete sem antes quebrar os ovos, pode-se perguntar o que sucede na outra ponta do processo, aquela que é habitada pelas empresas menos capazes, pelos produtos não tão bons ou – e sobretudo – pelos profissionais não tão qualificados. Estes são empurrados para baixo da escada, sem que se prevejam mecanismos, que não os assistenciais, para mantê-los no seio da comunidade ativa.
Acrescente-se que a competição “perfeita” não existe, pois o mercado é palco de inúmeras ações que deturpam a pureza teórica do sistema. A publicidade, os lobbies, a atuação mais ou menos ética sobre todos os centros decisórios, deturpam a decantada ação auto-reguuladora do mercado. Assim, as nossas ruas se enchem de automóveis que não conseguem trafegar e muito menos estacionar (e podem rodar a 150 ou 200 quilômetros por hora, embora as nossas rodovias não permitam que se ultrapasse o patamar dos 120…); e os nossos trens foram retirados do cenário, para assegurar a opção pelos caminhões. Safras de soja sendo transportadas do Mato Grosso ao Atlântico a bordo de caminhões em estradas esburacadas aumentam exponencialmenmte o custo Brasil. Onde se esconde a lógica nessas medidas equivocadas? Assim, as empresas menos capazes, os produtos não tão bons, os profissionais menos qualificados, muitas vezes encontram-se atroelados por concorrentes que fizeram uso de ferramentas que nada tinham a ver com a comparação justa, pura e simples.
A Economia Solidária propõe um profundo entrosamento entre seus atores. A idéia do Comércio Justo engloba ética, ecologia, respeito pela natureza; ver nos demais parceiros, ao invés de interlocutores que devem ser vencidos nas mesas de negociação, irmãos cujo êxito dita e também depende do nosso…
Antes que se possa arguir que essas idéias igualitárias não resistem à competição que a nossa realidade capitalista impõe, pensemos no Cooperativismo. Nascido como reação aos excessos da Revolução Indistrial da virada dos Séculos XVIII para XIX, o Cooperativismo prosperou, desde então, sob todas as latitudes e no âmbito de todos os regimes. A União Soviética conviveu com os kolkhozes, o socialista Estado de  Israel doi edificado sobre os kibbutzin; o Canada e os Estados Unidos, a Itália e a Espanha, a França e a Inglaterra, abrigam numerosas cooperativas, das quais Mondragon (Espanha) é um exemplo, entre muitos outros, a ser destacado.
Por que são tão mal conhecidas, entre nós, as Cooperativas?
Boa pergunta, não? Antes que sigamos adiante com esse tema da Economia Solidária, uma forma de participação no mundo do trabalho, deixemos que cada um reflita um pouco a respeito.

ALTERNATIVAS PÉS NO CHÃO

12 de fevereiro de 2010
É preciso que tiremos da Economia Solidária o rótulo de devaneio, loucura mansa, utopia simpática, segundo time da preferência de todos nós.
Vamos até a rua. Olhemos à nossa volta: o capitalismo tal como o praticamos gerou o excesso de automóveis particulares, que transformam as cidades que ainda existem nas memórias dos mais velhos (e que podem ser encontradas no interior do Brasil) em pequenos infernos. Os carros trafegam em baixa velocidade, por estar o trânsito engarrafado. Chegados ao lugar de destino, não terão onde parar, por absoluta falta de vagas. O seu capital-carro corre o risco de ser arranhado ou amassado tanto em movimento quanto parado. Entre combustível, seguro, IPVA, lavagens, óleo lubrificante, manutenção mecânica, pedágios, estacionamentos e outras despesas que pouco importa ficar listando, o feliz proprietário gasta uma nota preta com essa máquina que adquiriu para melhorar a sua qualidade de vida. Bem melhor investimento seria adquirir um imóvel, mas aí teria de recorrer aos nossos deficientes transportes coletivos.
Pois alguém, ou muitos alguéns, no passado, resolveu optar, em nosso nome e sem consulta, pelo transporte rodoviário. Nada de barcaças em rios, de navios de cabotagem e, muito menos de trens. Caminhões e ônibus. E desse patamar passaríamos direto para os aviões.
Filho feio não tendo pai, o perverso modelo adotado simplesmente nasceu de proveta. Ei-lo. A nós caberá decidir o que fazemos com ele.
Mas, neste momento, vamos abrir espaço para uma reflexão: foi a economia de mercado que nos levou a transformar lindas metrópoles cheias de parques e jardins em horrores repletos de automóveis parados, o ar irrespirável por causa da fumaça de carros, ônibus e caminhões? Pois foi. Como também é a economia de mercado que protege indústrias como a do tabaco, danosa para a saúde, ou a da recuperação de pneus, altamente poluidora, destacando o seu aspecto de grandes contribuintes. Não é a economia a servuiço das pessoas, mas são estas a serviço da economia e sua lógica própria.
O verão está de matar no Brasil, o inverno obriga à paralização das atividades nos Estados Unidos. Culpa de atividades econômicas irresponsáveis. Ou prova que a economia de mercado não é capaz de se auto-regular satisfatoriamente, no respeito pelo interesse real da população.
O remédio? Pois é a participação.
Que no campo político, assume os contornos da gestão participativa proposta pelo Estatuto da Cidade (em decorrência da Constituição Federal), e no campo econômico identifica-se com a economia solidária, esta que não aceita que a competição seja o conceito a prevalecer sobre todos os demais, desde a educação até o êxito – ou exclusão – na atividade profissional e empreendedora.
Os adeptos da Economia Solidária querem mostrar que “fazem samba também”. Não utópica, não teórica, não bem-intencionada mas ineficaz, a Economia Solidária quer provar, através das cooperativas, das EPCs, dos balanços sociais, do comércio justo, das redes, que tem o seu lugar ao lado de qualquer outro modelo, para o bem das pessoas.

e-mail: guedon@globo.com

OITO OPÇÕES PARA DEFINIR O RUMO DO BRASIL

8 de fevereiro de 2010

Oito séries de opções definem o modelo de desenvolvimento que convém ao Brasil. Modelo que transforma a ampliação de oportunidades econômicas e educativas no motor do crescimento. E que afirma a primazia dos interesses do trabalho e da produção sobre os interesses do rentismo.

1.Reposicionar o Brasil na divisão internacional do trabalho. Deve o país optar contra caminho, como o da Nova Zelândia ou do Chile, que combina  produção e exportação de produtos primários com tentativa de formar elite internacionalizada de serviços. O Brasil é grande demais para abandonar sua vocação industrial. Ao manter-se fiel a ela, precisa também optar contra estratégia como a que a China seguiu: apostar, por muito tempo, em trabalho barato e desqualificado. Não prosperaremos como uma China com menos gente.

2. Financiar internamente nosso desenvolvimento. Dividir ao meio a seudo-ortodoxia econômica que os governos brasileiros abraçaram em décadas recentes.  Reafirmar a parte útil — o realismo e a responsabilidade fiscais –, mesmo à custa de renunicar, por algum tempo, a instrumentos de uma política contra-cíclica. Repudiar a parte nociva — a tolerância de nível baixo de poupança pública e privada e a consequente dependência do capital estrangeiro para financiar nosso desenvolvimento.

Em tese, o nível de poupança é mais efeito do que causa do crescimento. A mobilização inicial dos recursos nacionais representa, entretanto, condição para a afirmar estrátegia rebelde e inovadora de desenvolvimento.

A elevação da poupança pública requer disciplina fiscal. Já para elevar a poupança privada, temos de construir mecanismos que organizem e aproveitem a poupança previdenciária.

O aumento da poupança privada e pública será, porém, indiferente ou nocivo sem canais que encaminhem a poupança de longo prazo para o investimento de longo prazo. E que evitem que seu potencial produtivo se desperdice num casino financeiro. Investimento e inovação: este é o binômio crucial.

3. Redefinir a política agrícola. Agropecuária, ainda a principal atividade econômica do Brasil, tem tudo para exemplificar o vínculo entre diversificação da produção e democratização das oportunidades. Para isso, precisa pautar-se por três objetivos entrelaçados. Fazer da agricultura familiar agricultura empresarial. Agregar valor aos produtos agropecuários no campo. Construir classe média rural forte como vanguarda de massa de trabalhadorea agrícolas mais pobres que avançara atrás dela.

Este projeto vingará no contexto da solução do maior problema físico de nossa agricultura: a recuperação de pastagens degradadas que hoje formam grande parte do território nacional. (No Brasil, para cada hectar sob lavoura há quatro entregues à pecuária extensiva.) Se recuperarmos parte desta área, dobraremos a área cultivada e triplicararemos nosso produto agrícola sem tocar uma única árvore.

4. Reorientar a política industrial. Se abrirmos para as pequenas e médias empresas o acesso ao crédito, à tecnologia, ao conhecimento, aos mercados globais, criaremos dínamo de crescimento includente. São elas a parte mais importante de nossa economia; é ali que se gera a maior parte do produto e é ali que está a vasta maioria dos empregos.

Organizar fora dos centros industriais travessia direta do pré-Fordismo industrial para o pós-Fordismo industrial, sem que o todo o país tenha de penar no purgatório de um paradigma de produção –  produção em grande escala de bens e sereviços padronizados, por meio de mão de obra semi-qualificados e processos produtivos rígidos e hierárquicos — que já se vai tornando superado no mundo e que inibe nossa ascensão na escalada da produtividade. O Brasil todo não deve ter de virar a São Paulo de meados do século passado para depois tornar-se outra realidade.

5. Reorganizar as relações entre trabalho e capital. Não se inova nisto desde Vargas. A maior parte do povo brasileiro está fora do regime legal. Quase metade da população economicamente ativa continua na informalidade. Parte crescente dos empregados na economia formal encontra-se em situações precarizadas, de trabalho temporário, terceirizado ou autônomo.

Construir, ao lado do regime estabelecido de leis trabalhistas, um segundo corpo de regras, destinado a proteger, a organizar e a representar os trabalhadores inseguros das economias informal e formal.

6. Capacitar o povo brasileiro.

A primeira prioridade é reconciliar a gestão local das escolas pelos estados e municípios com padrões nacionais de investimento e de qualidade: federalizar — na prática, não apenas na lei — os padrões. Para reconciliar gestão local com padrões nacionais é preciso criar instrumento para consertar redes de escolas locais que caiam repetidamente abaixo do patamar mínimo aceitável de qualidade. O meio é associar os três níveis da federação em órgãos conjuntos que possam vir em socorro destas escolas, assumi-las temporariamente, confiá-las a gestores profissionais independentes e devolvê-las consertadas.

A segunda prioridade é mudar a maneira de aprender e de ensinar no Brasil. Substituir decoreba — o enciclopedismo informativo superficial — por ensino analítico e capacitador, com foco no básico: análise verbal e análise numérica.

O lugar para iniciar esta obra é o elo fraco: a escola média. E o instrumento mais promissor é educação secundária com fronteira aberta entre o ensino geral e o ensino técnico. Ensino geral que subordine memorização a análise. Ensino técnico que priorize o domínio de capacitações práticas flexíveis e genéricas em vez de priorizar a aprendizagem de ofícios rígidos.

7.Reconstruir o Estado. Não existe ainda no Brasil o Estado capaz de executar o programa que aqui se esboça. Nosso Estado continua a ser balofo e incapaz. Há três agendas de gestão pública a executar simultaneamente.

A primeira agenda, a do profissionalismo burocrático, é a obra incompleta do século 19 em matéria de administração pública. Temos ilhas de profissionalismo no Estado. Continuam a flutuar em oceano de discricionariedade política.

A segunda agenda, a da eficiência administrativa, está associada ao século 20.  Reinventar para o setor público práticas de gestão empregadas no setor privado: padrões de desempenho, garantias de transparência, mecanismos, dentro e fora do Estado, para avaliar, incentivar e cobrar resultados. Transformar o direito e o processo administrativos. Metade do que temos é camisa-de-força, baseada em desconfiança. A outra metade é o oposto: a delegação de poderes discricionários a potentados administrativos. Ambas as metades precisam ser substituídas por regras e procedimentos que permitam reconciliar fidelidade aos objetivos com flexibilidade na execução.

A terceira agenda, a ser característica do século 21, é a do experimentalismo na maneira de prover os serviços públicos, inclusive de educaçaõ e de saúde. Não precisamos escolher entre a provisão burocrática de serviços padronizados de baixa qualidade e a privatização destes serviços em favor de empresas à busca de lucro. Pode o Estado ajudar a organizar e a financiar a sociedade civil independente para que ela participe da provisão competitiva e experimental dos serviços prestados pelo Estado ao cidadão. É a melhor maneira de qualificá-los.

8. Institucionalizar a cultura republicana.

O primeiro ponto de partida é substituir federalismo de repartição rígida de competências entre os três níveis da federalismo por federalismo cooperativo que os associe em ações conjuntas e em experimentos compartilhados.

O segundo ponto de partida é adotar medidas que comecem a tirar a política da sombra corruptora do dinheiro. Financiar publicamente as campanhas eleitorais para diminuir a influência do dinheiro privado. Rever o processo orçamentário para que o orçamento deixe de ser palco pantanoso da negociação entre os interesses poderosos. Substituir a maior parte dos cargos de indicação política por carreiras de Estado.

Utopia? Tudo isso é factível com instrumentos que já temos à mão. O objetivo é dar braços, asas e olhos à vitalidade brasileira.   Roberto Mangabeira Unger é Professor Titular da Universidade de Harvard (EUA).